o êxtase não repete seus símbolos
Quem se leva muito a sério vive chateado e é chato. Tá certo que no trabalho e na escola, a gente tem que fazer as coisas dentro do previsto, já no "resto da vida" ... postura cartesiana e regradinha é para quem vive em mosteiros, não pra gente comum. Não estou falando de sair "cometendo loucuras", mas de fazer coisas leves, fluidas, gostosas, bobas, pelo menos no fim de semana - o território da liberdade condicional. Isto é um elogio aos que valorizam a impetuosidade e aos que desenham seus mapas a lápis!
- "Do Rigor na Ciência" de Jorge L. Borges, em: História Universal da Infâmia. "Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Cartográficas."
Escrito por Ale Carvalho (Lain) às 17h05
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Se não gosta do que existe, faça você mesmo.
Bem bacana o dossiê sobre os 30 anos do movimento punk, publicado na edição de outubro da Cult. O movimento morreu, virou moda, produto. É style se vestir como um punk de nada. A revista traz análises do que restou das atitudes, da música, das roupas/estilo e sobre o uso dos meios digitais. São 19 páginas com artigos e entrevista. André Lemos escreveu o texto que mais interessa à gente conectada. Numa linguagem sem firulas, ele diz como a máxima do movimento punk -"faça você mesmo" - pode ser traduzida para as três leis da cibercultura. A primeira lei é a emissão - ou seja, no punkês, "produza e distribua informação" em chats, Orkut, MSN, blogs, fotologs, vlogs, podcasts, peer to peer (p2p) e softwares livres. A segunda lei é a conexão, circulação. Ou "compartilhe, misture, colabore, distribua informação". É a conexão em rede sob todas as formas. A terceira lei é a configuração das práticas sociais, instituições e formatos de meios de comunicação. Ou "dê sua parcela para modificar a cultura vigente". É a reorganização e convivência de várias formas de comunicação: jornal na internet e impresso, espaço urbano e redes, podcast e rádio, amigos de bar e MSN. => "Não são punks os que fazem podcasts, blogs etc. Trata-se hoje, com a morte dos grandes movimentos, de uma apropriação generalizada dessas tecnologias. Abrem-se assim novas possibilidades de liberação da emissão, de conexão em rede e de reconfiguração. Para participar dessa cultura eletrônica, dessa cibercultura punk, não é necessário usar presilhas no nariz, cabelo estilo moicano ou roupas rasgadas. Basta plugar-se na rede." (A.Lemos)
Hoje é aniversário de outro irmão: Anderson, que acha esse papo de "faça você mesmo" a maior perda de tempo.
Escrito por Ale Carvalho (Lain) às 11h44
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vertigens de hoje
No sábado, a Folha de S. Paulo levantou um tema polêmico, mas não recente: a credibilidade das publicações científicas e do sistema de avaliação de artigos de pesquisa. A coisa já chegou ao ponto em que pesquisadores de biomedicina, preocupados com a crescente participação de estudos financiados pelos gigantes da indústria farmacêutica, recomendam que resultados destes trabalhos não sejam levados a sério e publicados. Há pesquisas que comprovam distorção de dados para mostrar eficácia de certos tratamentos e remédios (especialmente de anti-depressivos). Então, voltamos à discussão sobre uma medicina que se baseia em evidências, além de muitas outras coisas derivadas do marketing da ciência. Saúde interessa a todos, não adianta fingir indiferença pelo assunto... Eu ainda acredito na ciência para o bem. --- Hoje, meu irmão Fabrício faria 21 anos, caso não tivesse morrido em janeiro de 2003, por causa de uma doença diagnosticada em julho de 1999. Ele tinha sarcoma de Ewing na coluna. É um raro câncer de osso, que aparece mais em meninos brancos durante a infância e puberdade. Há apenas 20% de chance de cura. Na época do diagnóstico, me inscrevi em várias listas de troca de informações com pessoas que tinham casos parecidos na família. Alguns institutos nos EUA e Europa criaram redes (cancer-net) para leigos. Tudo que eu achava de interessante passava para o oncologista que cuidou do meu irmão em Belém-PA. Era um cara muito dedicado, que aceitava receber informações encontradas por mim e tratava meu irmão com carinho. Um dos sonhos do Fabrício era ser cobaia dos estudos de células-tronco nos EUA. Ele também acreditou na ciência até o fim, esperava tudo da medicina e um tantinho da ajuda do deus em que tinha fé... Apesar da agressividade da doença, das cirurgias e do tratamento, a vivacidade do meu irmão era surpreendente e inesquecível para todos que o conheceram. Foi vida humana e, por isso, frágil.
Escrito por Ale Carvalho (Lain) às 08h25
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yoou... soft and only, yooou... just like heaven!
Quem leu "O sofrimento do jovem Werther", de Goethe, sabe que ele é escrito com sangue. É um belo livro, embora triste. São cartas do jovem para um amigo, em que relata a angustiante paixão platônica por Carlota, uma amiga noiva. Hoje ele não escreveria cartas, mas e-mails, scraps e comments. Então... recebi estes dias um e-mail de um(a) Werther dos tempos atuais. Suprimirei nomes e trocarei informações para manter o anonimato do cyber-werther. Não sei o que isto me custará, mas... vejam que texto inspiradíssimo, apesar do computador ser um meio frio. Poderia ter sido no orkut, nos chats, num bar, num bosque, mas a "visão" do enamorado foi em um blog: neste que você lê. E não adianta que não revelarei jamais quem é o objeto de desejo (pode ser você, caso tenha comentado mais de 3 vezes...). Eu sou o amigo que recebe as cartas.
O recorte da e-pístola cybergoethiana que recebi: "A ilha estava linda. Cássias(amarelas) e ipês(violetas) cheios de flores. Água de coco frequíssima. Camarão e sirí macios. E muito vento leste... É o auge da estação. Saí do continente com enorme curiosidade, imagine só, que liguei lá da ilha - do celular- para Santiago, Chile. Lá estava a única pessoa que confiaria, sem maiores explicações, a pergunta que me enfastiava: O que comentou a criatura sobre o novo post? (...) Perdi o barco da manhã e só voltei no início da noite. Apertei o reward do Karapanã...prá olhar de novo, e mais de perto, todos os comments ...é um caso de blog at first sight. Virtual, distante, impossível...mas agradável, divertido, saudável. Meus olhos umedecem e ressecam de maneira diferente...recuperei uma faculdade que há anos havia guardado (não lembro quando ou onde, mas sei porque..) ...aquecer ou esfriar o olhar...ver as pessoas diferente, sei lá...mas é muito bom isso." (...suspiros...)
Escrito por Ale Carvalho (Lain) às 10h27
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